Maternidade X Individualidade por Roberta Brack

Maternidade e minha individualidade? Com o tempo entendi que não dá pra separar tanto assim essas duas "personas". E separá-las, na minha opinião, nem é saudável. Demora, a gente briga um pouquinho, mas entende, absorve e acaba gostando do nosso "eu mãe".

dia das mães com a Soneto jóias de borracha

Vou contar um pouquinho de como "caiu a ficha" pra mim essa questão "maternidade X individualidade".

Antes de ter minha filha, era multitarefa: dava aulas na UnB, em faculdades particulares e ainda trabalhava em um escritório de arquitetura. Por algum tempo, ainda dei aulas de desenho nos finais de semana. Quatro empregos! Decidi que, para ter o tão sonhado filho, o ideal seria ter autonomia sobre meu tempo e, por que não gerir meu próprio negócio? Inocentemente, pensei que esta seria a solução de todos os problemas de quem quer trabalhar com tranquilidade e ser mãe. Hehehe.

Pois bem, lá em 2012 abri o Estúdio Revoada, estúdio de design gráfico que, inicialmente, também realizava convites de casamento. De fato, queria trabalhar com algo mais leve e vi nos convites uma boa oportunidade de negócios. Foi preciso desprendimento e coragem para "jogar fora" anos de experiência e um mestrado em design de produto para trabalhar em uma área nova para mim (os convites); mas que eu sabia que ia gostar, que ia vingar e que me ajudaria a alcançar outros sonhos, como o de ser mãe e ter autonomia.

Tudo dentro do planejado? Mais ou menos...

Não foi tão fácil quanto imaginei gerir um negócio e as milhões de demandas e conflitos de interesses (os meus internos mesmo - demorei a aceitar que minha formação acadêmica não seria muito útil nesse novo empreendimento). Mas ok. Tudo certo! Next step: realizar o sonho de ser mãe.

A gravidez veio direitinho, conforme planejado. Check! Beleza! Tudo no flow, tudo dominado! Maaaas... eu ainda tinha lições a aprender:  já no início, a maternidade veio pra anunciar que a vida iria mudar e que essa história de planejar demais é bobagem. Minha Isadora nasceu antes do tempo, com 34 semanas. Apressadinha desde sempre! E veio sem muita explicação da prematuridade. Estava tudo bem e ,de repente, não estava mais. Talvez eu tenha trabalhado muito. Não sei...

Só sei que a gente se prepara para o parto, se prepara para cuidar de um bebê, prepara o quarto, a casa, o coração... Mas nunca se prepara para ter um filho prematuro.

Meu primeiro mês como mãe foi dentro de uma UTI. Não soube o que era segurar um filho que acaba de nascer, só a segurei depois de 1 semana; não sei como é cuidar de um umbiguinho prestes a cair e não senti nem o cheiro do primeiro cocozinho. A duras penas consegui estimular a produção de leite (na mão mesmo) e tenho muito, mas muito orgulho de ter amamentado por 2 anos.  O fato é que, passado esse período de hospital, voltei pra casa e achei tudo fácil.

O pior já havia passado. Me achei a mulher mais forte do mundo, a mãe mais porreta do universo e decidi que podia voltar a trabalhar. Voltei para assumir minha vida profissional quando minha filha ainda deveria estar na barriga. Conseguia trabalhar, fazer almoço, cuidar de um bebê, cuidar da casa, de mim (juro que eu conseguia receber as pessoas de batom e cabelo arrumado) e, por muito tempo, não entendi as mães que ficavam por aí de "mimimi".

Mas o cansaço foi pegando... Um bebê que antes só dormia, começava a ter cólicas, a engatinhar, a querer brincar, a ficar temperamental, a exigir minha atenção total, completa, inteirinha.

E meus compromissos e deadlines de trabalho não mudavam. Estavam ali. Por mais que tivesse uma sócia na época, eu tinha que trabalhar para ter direito ao que era proporcional a mim no final do mês. E para honrar os compromissos também, claro.

Eu ficava contando meu horário de trabalho no relógio, assim como contava o tempo que ficava com minha filha. Tudo para não perder o controle de quanto estava trabalhando, de se estava sendo justa com minha sócia na questão de proporção de horas, se estava amamentando direito...

Fiquei com trauma de relógio nesta época. E comecei a cansar. A exaurir, na verdade.

Uma depressãozinha começou a bater à porta. Não me entreguei. Na verdade, me entreguei um dia, sim. Nesse dia, vi que minha filha só queria ficar no meu colo para mamar e depois me empurrava, queria ir para o papai ou ficar em qualquer outro lugar. Só não no meu colo. Foi a coisa mais triste que já senti na vida. Aquela noite, enquanto ela dormia, abracei-a, pedi desculpas e chorei como nunca.

De cansaço, de tristeza, de culpa. Jurei que seria a melhor mãe que ela podia ter e que meu trabalho ou qualquer urgência particular minha nunca mais estaria à frente dela. Mandei ao ˆ%$*% todas as demandas que tinha no trabalho. Depois dessa noite, tudo ficou mais claro. No entanto, todo esse processo de adaptação (associado a alguns conflitos de interesse normais, porém agravados por toda situação) acabou me custando uma sociedade. Mas foi melhor assim. Pude encontrar meu próprio caminho para colocar o trabalho e o "eu mãe" na balança de forma mais natural e sem expectativas. "Só" as minhas próprias.

Entendi que é importante, após a maternidade, retomar nossa individualidade, nosso trabalho, nosso sonho e nossas vaidades. Mas não é o mais importante.

Tudo vai acontecer em outro ritmo. Você querendo ou não. Demorei pra perceber que eu não sou e nunca mais serei a mesma de antes.

Agora que minha filha já tem 4 anos, consegui colocar algumas coisas de volta nos trilhos e retomei alguns projetos antigos. Toco o Estúdio Revoada projetando identidades visuais  para empreendedores. Lindas, sem falsa modéstia! E estou conseguindo estudar bastante (inclusive, estou preparando cursos bem legais).

Mas o fato é que, enquanto mãe de uma criança pequena, nunca mais terei quatro empregos ao mesmo tempo e nem conseguirei realizar tão cedo toooodos os meus sonhos. Mas se for pensar... já realizo tanto!

Sou mãe, trabalho com o que me faz bem, e faço bem às pessoas que me procuram; e tenho relativa autonomia sobre meu tempo. Plenitude pra mim é poder passar três manhãs por semana só com a minha filha; é ler pra ela antes de dormir ao invés de ficar projetando ou perdida em meus próprios interesses; é saber que ela chama a mamãe quando o bicho pega pro lado dela; é saber que a confiança é total e que mãe e pai são as pessoas mais importantes no mundo. Isso é o que me faz bem.

Isso é o que eu sou. Isso é a minha nova e feliz individualidade! =)

por Roberta Brack


Deixe um comentário